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29/05/2006
MATÉRIA: PAUL MURRY - ESSE "DESCONHECIDO"!
 
 
Paul Murry
 
 
Tico e Teco
 
 
Coelho Quincas
 
 
Lobinho
 
 
O Monstro Marinho
 
 
Pato Donald
 
 
O Vespa
 
 
Mickey #107
 



Hoje em dia, para a imensa maioria dos leitores de HQs, falar em quadrinhos Disney é falar em Carl Barks. E não é à toa, pois Barks é um dos maiores quadrinhistas de todos os tempos, merecendo estar na galeria dos imortais, ao lado de Will Eisner, Alex Raymond, Hal Foster e outros poucos ícones da chamada Nona Arte. Afinal, Barks roteirizou e desenhou uma infinidade de histórias com os personagens de Patópolis, criando, além da própria cidade, personagens marcantes como o Tio Patinhas, Prof. Pardal e Lampadinha, a Maga Patalójika, os Irmãos Metralha, Gastão, Patacôncio, e outros tantos.

Enfim ... Barks é indiscutível. Mas o que muita gente não sabe é que nem só de Barks vivia a Disney, nos áureos tempos. Entre tantos outros expoentes daquela editora, como Floyd Gottfredson, Al Taliaferro, Jack Bradbury, Al Hubbard, Tony Strobl e outros menos votados, há um desenhista que é conhecido apenas pelos aficcionados, mas que teve uma importância enorme para os quadrinhos Disney, especialmente para o Mickey: Paul Murry.

Muitos leitores, quando lembram do Mickey, pensam logo no velho Mickey de calção vermelho, com dois botões amarelos, idealizado por Walt Disney e Ub Iwerks, mas imortalizado por Floyd Gottfredson, o Mickey das tiras de jornal e dos primeiros desenhos animados. Um breve parêntese: para a infelicidade dos fãs mais antigos, já há algum tempo os desenhistas resolveram recuperar a imagem do Mickey de calção, porém com roteiros muito fracos, transformando-o de um personagem inteligente, esperto, perspicaz e seguro de si em um bobalhão infantilóide, que consegue desagradar a todos, desde as crianças e leitores mais novos até os fãs mais antigos e exigentes. Fecha parêntese.

Mas como o assunto aqui é Paul Murry, voltemos a ele. Para inúmeros fãs, se Gottfredson deu vida e personalidade ao Mickey, em histórias memoráveis, como “O Vale da Morte” e “Mickey Contra o Mancha Negra” (recentemente publicadas pela Editora Abril, em Mestres Disney), foi Murry quem, ao lado do veterano roteirista Carl Fallberg, melhor explorou o lado detetive do camundongo, fixando a imagem do Mickey de chapéu, terno e gravata ou, muitas vezes, de capote, ao melhor estilo 007. Ao lado de seu eterno e fiel amigo Pateta, e, por vezes, junto com o Pluto, Minnie ou os sobrinhos Chiquinho e Francisquinho, Mickey viveu muitas aventuras ao redor do mundo, e até em outras épocas, sob a competente batuta de Fallberg e o lápis mágico de Murry.

Em toda a sua carreira, Paul Murry nunca escreveu uma história sequer, mas seu traço é inconfundível. Para quem não conhece o estilo de Murry, uma imagem deve ter ficado gravada na mente de todos quantos leram aquelas aventuras: o Pateta com a mão à frente da boca, em uma expressão abobalhada. Aquele era o traço de Murry.

Mas, afinal, quem era Paul Murry?

O desenhista nasceu em 25 de novembro de 1911, em Saint Joseph, no Estado de Missouri. Em 1943, desenhou sua primeira tira com um personagem Disney, as tiras de estréia do Zé Carioca nos quadrinhos, com roteiros de Ubie Karp. Estas tiras foram desenhadas a várias mãos, e Murry ficou responsável pelas publicadas entre 7 de março e 5 de setembro daquele ano. Esse trabalho inicial de Murry foi mostrado pela Editora Abril no Zé Carioca Especial 20 Anos, de junho de 1981, comemorativo aos 20 anos de publicação do personagem no Brasil.

Depois de desenhar algumas poucas tiras com o papagaio, Murry passou a desenhar as tiras do Panchito, com roteiros de Bill Walsh, durante 1944. Ainda neste ano, Murry começou a auxiliar Floyd Gottfredson nas tiras do personagem que o tornaria famoso, o Mickey. Em 13 de novembro de 1944 começava a publicação de “The House of Mystery”, primeiro trabalho de Murry com o camundongo, também com roteiros de Bill Walsh, estendendo-se até 27 de janeiro de 1945.

Depois dessas tiras em parceria com Gottfredson, Murry passou a alternar as tiras do Panchito com as do Mickey, sempre roteirizadas por Bill Walsh. Ainda em 1945, Murry começou também a desenhar tiras com o Coelho Quincas. Os roteiros? Sempre Bill Walsh.

No ano seguinte, depois de três anos só nas tiras de jornal, Murry desenhou a primeira história para uma revista em quadrinhos (a edição #129 de Four Color Comic, da Western Publishing, sob o selo Dell Comics), com o Coelho Quincas, publicada em dezembro de 1946, com roteiros de Chase Craig. Com raríssimas exceções, esse trabalho inicial de Murry é todo inédito no Brasil.

No início de 1947, Murry começou a publicar também na revista Disney mais famosa da época, a Walt Disney’s Comics (and Stories), também da Dell Comic, estreando na edição #76, de janeiro de 1947, com uma história do Coelho Quincas, também com roteiros de Chase Craig. Já na edição #78 da WDC, Murry assumiu os desenhos de mais alguns personagens, o Lobão, o Lobinho e os Três Porquinhos, com os quais trabalhou durante todo o ano.

Os próximos dois anos não foram muito produtivos, pois Murry desenhou apenas poucas histórias com o Coelho Quincas em 1949, para a Four Color Comic. Em 1950, entretanto, Murry desenhou sua primeira história com um personagem de primeira linha da Disney, o Pato Donald. Durante aquele ano, Murry produziu quase uma dezena de histórias com o pato, alternando-se entre a Four Color Comic e a Walt Disney’s Comics (and Stories).

Esses três anos da produção de Murry foram praticamente todos publicados no Brasil, especialmente nos números iniciais da revista Pato Donald, da Editora Abril.

O ano de 1950 ficou marcado, entretanto, como o ano em que Murry desenhou sua primeira história longa com o Mickey, “The Monster Whale”, no Brasil “O Monstro Marinho”, publicada originalmente em Walt Disney’s Vacation Parade #1, de julho de 1950 (Dell Comic). No Brasil, a história foi publicada em Mickey #29, de fevereiro de 1955, e no especial Mickey 75 Anos, de 18 de novembro de 2003, edição comemorativa aos 75 anos de criação do personagem.

Fora esta história com o Mickey, Murry permaneceu durante todo ano de 1950 desenhando histórias com o Pato Donald, com algumas raras exceções, como uma história com a Vovó Donalda e duas com os esquilinhos Tico e Teco.

Foi somente no ano seguinte que Murry voltou a trabalhar em uma história longa do Mickey, “The Mystery of the Double-Cross Ranch”, uma história de 32 páginas, publicada em Four Color Comic #313, de fevereiro de 1951. Durante este ano, Murry ainda desenhou outra longa com o Mickey, “The Ruby Eye of Homar-Guy-Am”, com roteiro de Don Christensen, publicada em Four Color Comic #343. Porém, a produção de Murry em 1951 foi pequena, com algumas histórias de uma página com o Mickey e o Pato Donald e apenas mais duas longas com o Donald, “Captures the Range Rustlers” (história que, aparentemente, marca a estréia nos quadrinhos do Fuinha, eterno comparsa do João Bafodeonça) e “The Inca Idol”. À exceção desta última, as demais permanecem inéditas no Brasil.

Depois de uma pausa em 1952, Murry voltou a desenhar para a Disney em 1953. Este ano marcou o início de uma exitosa parceria com o veterano roteirista Carl Fallberg (1915-1996), parceria essa que renderia mais de uma centena de excelentes histórias, não apenas com o Mickey, mas, também, com Pluto, Pato Donald, Vovó Donalda e o Pateta, entre outros personagens.

Entretanto, foi sem dúvida com o Mickey que a parceria melhor funcionou. A história que marcou o início desse trabalho conjunto foi “The Last Resort” (no Brasil “O Último Refúgio”), publicada em três capítulos em Walt Disney’s Comics (and Stories) #152, 153 e 154, entre maio e julho de 1953. No Brasil, a história foi publicada em Mickey #54, de março de 1957.

A partir daí, a parceria entre Fallberg e Murry foi num crescendo, produzindo excelentes e inesquecíveis histórias, tais como “O Caçador de Diamantes”, “A Cidade Perdida”, “O Magneto Maravilhoso”, “Os Piratas de Tabasco”, “Em Busca do Selo da Fortuna”, “A Lenda do Lago Grande”, “Os Salteadores de Trem”, “Perigo no Território dos Tacapes”, “O Mistério do Vale Solitário”, “O Ídolo da Ilhota Uivante”, “O Monstro da Neve”, “A Ameaça dos Comedores de Pedra”, “Os Náufragos da Baía da Baleia”, “Uma Aventura no Alasca”, “O Segredo do Pântano”, “O Segredo da Ilha Perdida”, “Uma Aventura no Havaí”, “O Mistério do Planalto da Penúria”, “O Tesouro de Eldorado”, entre dezenas de outras. As histórias mencionadas neste parágrafo foram todas publicadas no Brasil, em várias edições da revista Mickey.

Murry e Fallberg ainda produziram histórias ambientadas no passado, como “Mickey Contra Barbanegra, o Pirata”, “Os Vikings Invasores”, “Os Piratas do Rio” e “Os Piratas de Porto Plácido”. Poucas histórias da parceria Fallberg-Murry permanecem aparentemente inéditas no Brasil, entre elas: “Ridin’ the Rails”, “Yesterday Ranch” e “The Big Christmas Tree Mystery” de 1955, “The Crystal Ball Quest”, de 1957, “The Golden Sea Shell”, de 1959, e “The Treasure of El Dorado”, de 1962.

Algumas histórias marcantes desenhadas por Murry, cujo roteirista não está identificado, foram “Mickey na Legião Estrangeira”, “A Corda Mágica”, “A Bola de Cristal”, “O Papagaio Mudo”, “Na Ilha das Pérolas Gigantes”, “O Desfiladeiro do Beco sem Saída” e “A Serpente Aérea”, todas publicadas no Brasil.

A partir de meados da década de 60, Murry produziu também algumas histórias de confrontos inesquecíveis entre Mickey e Mancha Negra, tais como “A Volta do Mancha Negra” (história que marca a primeira aparição do Dr. X nos quadrinhos), além de desenhar algumas ótimas histórias da parceria Mickey-Pateta-Pato Donald contra o Mancha, como “Mancha Negra Volta a Atacar!”, “As Sementes da Árvore do Dinheiro”, “A Coroa de Tasbah”, “O Navio Pirata Voador” e “A Marca do Mancha”.

Demonstrando sua versatilidade, o desenhista produziu, ainda, algumas histórias de época que ficaram marcadas na nossa memória, como “Nos Tempos de Robin Hood”, “Ali Patinhas e os Quarenta Metralhas”, “A Lâmpada Mágica de Aladim Mickey”, “O Rei Mickey e os Cavaleiros da Távola Redonda”, “Dudu Patetus” e “A Família do Robinson Mickey”, além da inédita “Gullible´s Travels”.

Mas nem só com o Mickey se ocupava o desenhista. Murry deu origem ao “pseudo-romance” entre a Madame Min e o Mancha Negra em “A Bruxa Adormecida no Bosque” e desenhou algumas das melhores histórias do Superpateta (entre elas a história de sua origem, “O Ladrão de Zanzipar”), como “O Super-Trapalhão”, “Mancha Negra Encontra o Superpateta”, “Superpateta Ajuda Barzan das Selvas”, “O Estranho Caso do Dr. Tictac”, “Superpateta Contra o Superladrão” (primeira aparição do Dr. Estigma nos quadrinhos) e “A Onda dos Redemoinhos” (primeira aparição do Supergilberto nos quadrinhos). Todas essas histórias foram publicadas no Brasil.

Em 1966, Murry desenhou uma trilogia que marcou para sempre o Mickey agente secreto: “Operação Unidade Invisível”, “O Superagente Secreto: Um Porta-Aviões no Céu” e “O Mistério do Abismo”, com roteiros de Don Christensen. Estas histórias foram publicadas originalmente na revista Mickey Mouse #107 a 109, respectivamente em abril, agosto e outubro daquele ano. Nelas, Mickey e Pateta contracenavam com seres humanos e eram convidados a fazer parte da PI (Polícia Internacional), como agentes secretos, recebendo os codinomes de Abóbora 3 (Mickey) e Abacaxi (Pateta). Recebiam, ainda, muitos apetrechos para o desempenho de suas funções, bem ao estilo 007, além de um veículo terrestre-aero-anfíbio, a Coisa, que se deslocava em terra, mar e ar com a mesma desenvoltura. A trilogia foi publicada no Brasil em Mickey #168, 172 e 174, de outubro de 1966 e fevereiro e abril de 1967, respectivamente.

Além de desenhar as primeiras aparições nos quadrinhos do Superpateta, do Supergilberto, do Dr. Estigma e do Dr. X, mencionadas acima, o prolífico Murry foi responsável, ainda, pelas histórias que mostraram as primeiras aparições nos quadrinhos do Vespa Vermelha, em “O Mistério do Vespa Vermelha”, do urso Colimério e do guarda florestal Sucupira, em “Os Turistas”, e dos vilões Kid Mônius e Ted Tampinha, na aventura “O Tesouro de Umba-Lumba”.

Murry produziu, ainda, algumas histórias mostrando viagens no tempo: “O Último dos Dragões”, “O Feiticeiro do Castelo Mal-Assombrado” e “Viagem Através do Tempo”, além de fazer o Mickey encontrar-se com alienígenas em “O Reino Entre as Nuvens”.

A partir do início dos anos 70 começou a decair o trabalho do desenhista, apresentando histórias não tão boas, como “O Osso que Falava”, “O Chefe Pé-Grande”, “A Cidade que Afundava”, “Jornada à Terra de Nin-Guém”, “O Signo do Escorpião”, “O Mistério das Telas e Pintores Falsificados”, “A Pedra dos Vikings”, “O Elmo de Ouro”, “Mensagem na Casca de Noz”, “A Mansão do Velho Pirata”, “O Caso do Dente Falante”. “A Invasão de Dragões” e “A Ilha dos Monstros”, além de várias histórias curtas, de oito páginas, especialmente as do final dos anos 70.

A última história de Murry publicada nos Estados Unidos foi “The Remot Control Caper”, em Walt Disney’s Comics (and Stories) #510, de 1984. A partir daí, Murry desinteressou-se pelos quadrinhos, ficando afastado deles até sua morte, em 4 de agosto de 1989, em Palmdale, no Estado da Califórnia. Após seu o falecimento, o desenhista ainda teve duas histórias publicadas na Dinamarca, em 2004, “The Dream House” e “Two Many Monsters”. Todas essas histórias permanecem inéditas no Brasil, ao lado de muitas outras do portfólio de Murry.

Não existem muitos sites na internet que se referem a Paul Murry, mas uma página merece destaque, The Classic Mickey Mouse of Paul Murry (http://art-bin.com/art/murryeng.html).

Quem quiser conhecer todas as histórias desenhadas por Murry (ou quase todas, já que ainda há muitas histórias Disney, dos mais diversos autores, a serem indexadas), pode consultar o Inducks, o maior banco de dados sobre as histórias Disney na internet (http://inducks.org/), pesquisando o nome de Paul Murry em (http://coa.inducks.org/comp.php/9) ou acessando uma pesquisa previamente efetuada no endereço acima, cujo resultado pode ser visto clicando aqui

Pela sua relevância para os quadrinhos Disney, especialmente para o Mickey, Paul Murry mereceria uma obra semelhante à Carl Barks Library (no Brasil O Melhor da Disney - As Obras Completas de Carl Barks), compilando toda a sua produção. Estava prevista para 2006 uma edição da série Mestres Disney (Editora Abril) homenageando o desenhista, mas, em função da suspensão temporária da publicação, sabe-se lá quando (e se) esta homenagem será publicada.

Eu gostaria muito que a Editora Abril, reconhecendo a importância de Paul Murry, conseguisse publicar muitas (ou todas, quem sabe?) de suas histórias ainda inéditas no Brasil. Desejaria também que Murry pudesse aparecer com mais freqüência em Aventuras Disney, a revista da Editora voltada às republicações, especialmente de clássicos Disney. Gostaria, por fim, que as republicações das histórias de Murry contemplassem não só aquelas histórias já republicadas à exaustão pela Abril como, também, aquelas que nunca (ou pouco) foram republicadas, sempre com o intuito de mostrar às novas gerações que existe vida inteligente nos quadrinhos Disney fora das histórias de Carl Barks.

Paul Murry merece. E os fãs agradecem.


Paulo Ricardo Abade Montenegro
, que sempre gostou do Mickey de Murry, mesmo sem saber que aquele era o Mickey de Murry, é “webmaster” do site da
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