MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
23/02/2007
MATÉRIA: MOTOQUEIRO FANTASMA - PARTE 1
 
 
Ghost Rider #1: o
 
 
A estréia em Marvel Spotlight #5
 
 
Johnny Blaze - arte de Bob Budiansky
 
 
Roxanne e Crash Simpson - arte de Mike Ploog
 
 
Johnny Blaze e Satã - arte de Mike Ploog
 
 
Ghost Rider #1: em revista-solo
 
 
Champions #14: trabalhando em equipe
 
 
Ghost Rider #50: o Motoqueiro e o original
 


“Chuva… Engolfando a cidade em um manto úmido de escuridão. Chuva... Chocando-se contra uma face que outrora foi humana. Chuva... Combinada com a negra solidão da noite e criando uma triste cadência lacrimejante. Você é agora... O Motoqueiro Fantasma!”.

Sinistro e gótico, não acham? Pois foram as frases acima que apresentaram aos fãs dos anos setenta o Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider), um dos mais tétricos personagens da Marvel Comics a darem as caras naquele período, e naturalmente a nossa audiência já deve ter percebido que as suas origens e desenvolvimento serão o tema desse artigo. Todavia, antes de falarmos do Motoqueiro, voltemos um pouco no tempo, mais especificamente para os anos cinqüenta.

Naquela época o mercado americano de comics era muito mais diversificado do que nos dias de hoje, e um dos gêneros que mais obtinha sucesso junto a garotada era o Terror, principalmente através dos gibis da EC Comics como The Vault of Horror e Tales from the Crypt, que não faziam a menor cerimônia em mostrar mutilações, rituais satânicos, mortes escabrosas e outros horrores. Independente disso, os quadrinhos de todos os gêneros estavam fazendo tanto sucesso que acabaram chamando a atenção de alguns puritanos de plantão, como o psiquiatra Fredric Wertham, que se preocupavam com o impacto que tal tipo de literatura teria sobre a “formação moral” das jovens mentes americanas. O resultado dessa “preocupação” foi que a indústria de quadrinhos passou a sofrer pressões de todos os lados para “adequar” o seu produto às crianças estadunidenses, e a fim de se auto-proteger as editoras criaram o Comics Code Authority, um conjunto de normas que visava diminuir a suposta violência excessiva que existia nas páginas coloridas das revistinhas. Ora, no final das contas quem “pagou o pato” do surto moralista que varria a América nesse período foram justamente os gibis de terror, que foram todos cancelados. E nos anos subseqüentes as restrições impostas pelo Comics Code praticamente impediram o surgimento de novos quadrinhos que explorassem o sobrenatural, a morte ou o horror, mas vocês sabem como são as coisas, não há Mal que dure para sempre. Ou será que não há Mal que nunca retorne? Bom, o que importa é que no final dos anos sessenta e início dos setenta o gênero passou por um período de renascimento.

A Warren Publishing lançou uma série de títulos no formato magazine que exploravam o sobrenatural, entre eles as hoje clássicas revistas Creepie e Eerie, e a molecada se entusiasmou em ver nas bancas novamente gibis que exploravam o terror. Ora, as “majors” Marvel Comics e DC Comics se “ligaram” nesse movimento, e concluíram que deviam seguir essa nova tendência de mercado, mas sem muitos “exageros sanguinolentos” e sempre respeitando dentro do possível o Comic Code, que apesar de não estar sendo seguindo a risca pelas editoras ainda estava valendo. Os gibis de mistério da DC como House of Mistery, House of Secrets e Witching Hour passaram a ser levemente mais escabrosos e a Marvel lançou uma série de novos e horrendos personagens como o Homem-Coisa (Man-Thing), Filho de Satã (Son of Satan) e Satana, e relançou personagens clássicos como Drácula (Tomb of Dracula), Lobisomem (Werewolf by Night), Frankenstein e a Múmia (The Living Mummy). E, por fim, em 1972, na quinta edição da revista Marvel Spotlight (dedicada ao lançamento e teste de novos personagens perante o público) o Motoqueiro Fantasma surgiu pela primeira vez. Todavia, lamentamos informar que antes de explicar qualquer coisa sobre o nosso amado e diabólico motociclista seremos obrigados a retornar novamente aos anos cinqüenta, mesmo porque tal personagem não foi exatamente o primeiro Motoqueiro Fantasma!

Em 1949, o editor Vin Sullivan, o roteirista Ray Krank e o desenhista Dick Ayers trabalhavam para uma editora chamada Magazine Enterprises, e decidiram dar alguns toques sobrenaturais num herói de faroeste chamado Calico Kid, vestindo-o com uma fantasmagórica roupa branca fosforecente e rebatizando-o com o nome de Ghost Rider na revista Tim Holt #11. Antes de continuarmos, façamos aqui uma pequena explicação para esse nome: na língua inglesa a palavra “rider” tem um sentido amplo, servindo para designar tanto aquele que dirige um veículo automotivo quanto o sujeito que cavalga uma montaria animal. O novo status do personagem caiu no gosto do público, tanto que o herói ganhou revista bimestral própria em 1950, onde ao lado do seu cavalo branco Spectre e de seu parceiro chinês Sing Song ele combatia o mal no Velho Oeste, fazendo a bandidagem acreditar que estava realmente enfrentando um fantasma de verdade. Entretanto, os ataques que os quadrinhos sofreram nos anos cinqüenta acarretaram no fechamento da Magazine Enterprises em 1954, e o personagem foi para o Limbo dos Quadrinhos. Em 1967 a Marvel Comics viu que os direitos autorais do personagem estavam perdidos em algum lugar do Tempo e do Espaço e descaradamente relançou-o, mudando um ou outro detalhe do seu “background” para que a coisa não ficasse um plágio completo, como o nome da identidade secreta do herói, que passou a se chamar Carter Slade. Quem ficou encarregado de bolar as novas histórias do caubói com pinta de assombração foram os roteiristas Gary Friedrich e Roy Thomas, e curiosamente a arte ficou sobre a responsabilidade de Dick Ayers, um dos co-criadores do personagem nos anos cinqüenta. Porém, nem o talento desse trio impediu que a revista durasse apenas sete edições. O personagem posteriormente apareceu em outras revistas da Marvel como a Western Gunfighters, inclusive tendo seu legado levado adiante por outras pessoas como Jamie Jacobs (o seu parceiro na luta contra o crime) e por Lincoln Slade, o seu irmão. Infelizmente, o fantasmagórico caubói nunca foi um sucesso, mas em 1972 Thomas e Friedrich teriam novamente uma chance de “brincar” com um outro “fantasma”, já que coube a eles lançarem as histórias de um novo personagem de crânio flamejante. Depois de falarmos tudo isso, deixemos temporariamente o Ghost Rider caubói de lado, e comecemos finalmente a falar do Motoqueiro Fantasma!

Como já foi dito acima, o Motoqueiro estreou no gibi Marvel Spotlight #5 em agosto de 1972, e essa estréia contou com a participação de Friedrich no roteiro, a arte de um jovem artista egresso da Warren chamado Mike Ploog e a supervisão editorial de Thomas. E a história que pretendemos contar começa com um viúvo chamado Barton Blaze, que trabalhava e morava em um show motociclistico itinerante comandado e estrelado por Craig “Crash” Simpson. Um dia, durante uma apresentação Barton tragicamente faleceu, deixando órfão seu filho Jonathan “Johnny” Blaze. Compadecido com a situação do garoto, Crash adotou-o, e assim o menino cresceu ao lado da filha do motociclista, a bela Roxanne Simpson. Com o passar dos anos Blaze se apaixonou por Roxanne, e seus sentimentos foram correspondidos, e para completar o quadro geral o rapazinho mostrou-se extremamente talentoso no uso de motocicletas. Porém um acidente de moto causado por Blaze feriu gravemente Mona Simpson, sua mãe adotiva e esposa de Crash Simpson. No leito de morte, Mona pediu a Johnny que ele nunca se apresentasse com motos, já que ela temia que o jovem sofresse algum acidente fatal. Blaze seguiu a risca essa promessa e se contentou em trabalhar nos bastidores das apresentações de seu pai adotivo, mas um outro tipo de tragédia acometeu aquela família: após fechar contrato para se apresentar em Nova York e tentar bater o recorde mundial de salto de motocicleta sobre uma fileira de carros, Crash descobriu ser portador de câncer em estado terminal, e descobriu também que teria apenas mais algumas semanas de vida.

Inconformado com a situação, Blaze resolveu apelar, e apelar para um sujeito que sem dúvida alguma tinha muitos recursos. Bem, como o nosso amigo desde a juventude sempre foi fascinado por Ocultismo e estudou dezenas de livros místicos, podemos imaginar a quem ele pediu ajuda. Sim, ele pediu ajuda ao Tinhoso, também conhecido como Coisa-Ruim, porém geralmente chamado por nós de... Satã! E através de um ritual mágico Blaze convocou-o, e lhe propôs a sua alma imortal em troca da cura do câncer de Crash. Satã aceitou a barganha, deixando bem claro que um dia voltaria para cobrar a sua parte. Logo após o término do ritual Crash ficou curado, e cheio de si preparou-se para três semanas mais tarde tentar bater o recorde mundial de salto de moto. Só que aconteceu algo que Blaze não esperava: durante a apresentação tudo deu errado e Crash morreu. E não demorou muito para Satã dar as caras e exigir o seu pagamento, que era uma “coisinha” de nada: dali para frente Blaze passaria os períodos diurnos no Inferno e durante a noite caminharia sobre a Terra como emissário pessoal do Cabrunco. Porém Satã não contava com a chegada repentina de Roxanne, que com algumas recitações místicas (que ela secretamente aprendeu nos livros do seu namorado) e a pureza de seu amor protegeu espiritualmente Blaze, expulsando o Capeta e impedindo-o de levar seu amado para as regiões abissais. Mas vocês pensam que tudo terminou bem? É claro que não! Assim que a noite veio, Blaze foi tomado por uma estranha febre, e repentinamente todo seu corpo se incendiou, e sua face se converteu em um crânio flamejante. Passado o choque da transformação, o nosso herói sentiu uma estranha compulsão que o impelia a pegar sua moto e sair dirigindo por ai. E também sentiu um irresistível desejo de punir todo e qualquer criminoso que cruzasse o seu caminho. E assim começou a lenda do Motoqueiro Fantasma.

Em uma análise simplista podemos perceber que o Motoqueiro Fantasma nasceu da junção de três elementos: o sobrenatural, o super-heroísmo e a paixão que os americanos sempre tiveram por shows de motocicletas, em especial por Evel Knievel, um famoso motociclista conhecido tanto pela quebra de recordes quanto pelos acidentes sofridos. Só que, quando os envolvidos na concepção do Motoqueiro são chamados para lembrar a gênese do personagem a polêmica se instala de vez, porque cada um deles tem uma versão diferente sobre os bastidores da origem do personagem. Senão, vejamos o que Mike Ploog falou sobre esse tema em entrevista para a revista especializada em quadrinhos Alter Ego: “A primeira vez que escutei sobre o Motoqueiro Fantasma, achei que era o personagem do Velho Oeste (...) Depois do choque de saber que não era o do Velho Oeste, eu acho que minha primeira referência foi Evel Knievel, que era muito popular naquela época. Eu peguei algumas revistas e fiz um pouquinho de pesquisa, mas não muito. O que vi é que o visual de Knievel não funcionaria para alguém que vendeu a alma ao Demônio. Eu mais ou menos queria de volta a aparência do Velho Oeste. O uniforme que pus nele era o tipo de camisa dos filmes de faroeste dos anos cinqüenta. O crânio flamejante foi a parte mais óbvia do design. (...) A moto foi a parte mais difícil, uma vez que eu queria que ela fosse uma chopper (modelo customizado da Harley Davidson), mas eu também queria que ela parecesse um pouquinho especial. Eu tentei várias delas (...) Tinha que fazer uma moto que pudesse reproduzir facilmente, mas ainda mantendo-a com a aparência de uma chopper, mas ela não poderia ser um personagem maior que o próprio Motoqueiro Fantasma. Eu fiz um design e mostrei-o aos rapazes da Marvel, que dizeram: ‘Ótimo, vá em frente’. Não passei meses idealizando como deveria ser sua aparência”. Só que, para revista Comic Book Artists o editor Roy Thomas contou uma história um pouco diferente. Vejam só o que ele falou...

“Eu tinha bolado um personagem para a revista do Demolidor  – um vilão muito sem-graça – chamado Stunt-Master... Um motociclista. De um jeito ou de outro, quando Gary Friedrich começou a escrever o Demolidor, ele me disse: ‘Ao invés do Stunt-Master, eu gostaria de criar um vilão de motocicleta realmente assustador chamado Motoqueiro Fantasma.’ Ele não o descreveu para mim. Eu disse: ‘Só há uma coisa errada com isso. (...) Essa é uma idéia boa demais para ser usada apenas em um vilão do Demolidor. E esse personagem deveria ser lançado num titulo próprio.’ Gary não estava na redação no dia em que nós iríamos bolar o visual do personagem, e Mike Ploog – que seria o artista – e eu desenhamos o Motoqueiro. Eu tive a idéia de que seu rosto seria um crânio, e de que sua roupa seria próxima a usada por Elvis Presley no especial de Natal para a televisão de 1968, e mais adiante Ploog desenhou fogo ao redor de sua cabeça, só porque ele achou que seria legal”. Todavia, em 2001 Gary Friedrich praticamente atribuiu para si todos os méritos sobre a criação do personagem: “Bem, há alguma discordância entre Roy, Mike e eu sobre esse assunto. Eu ameacei em mais de uma ocasião que, se a Marvel estivesse em uma posição onde fizessem um filme ou fizessem um monte de dinheiro com isso eu iria processá-los, e provavelmente eu o farei... Foi minha idéia. Foi minha idéia desde a primeira vez que falamos sobre isso, o personagem ser um cara com crânio flamejante e dirigindo uma motocicleta. Parece que Ploog acha que o crânio flamejante foi idéia dele. Mas, para te falar a verdade, foi idéia minha”.

Depois de lermos os depoimentos acima, nos fazemos a seguinte pergunta: quem está com a razão? Muito provavelmente jamais saberemos, porém até os fãs já botaram a colher nessa cumbuca, tanto que alguns acreditam que a aparência do Motoqueiro foi inspirada no Caveira Flamejante (Blazing Skull), um herói da Marvel criado nos anos quarenta e que realmente lembra bastante o Motoqueiro. Tal teoria se apóia no fato de que sempre foi de conhecimento público a paixão que Roy Thomas nutre pela Era de Ouro, só que Thomas e os outros envolvidos nunca confirmaram essa possibilidade, e durante a publicação do Motoqueiro Fantasma a Marvel tampouco elaborou algum tipo de ligação entre os dois personagens. E, por falar na publicação do Motoqueiro, é melhor deixarmos essa polêmica de lado e prosseguirmos com a história de Johnny Blaze.

Após a morte de seu pai adotivo Blaze assumiu seu lugar como principal estrela do show motociclistico e rodou o país se apresentando ao lado de Roxanne. Naturalmente, ele foi obrigado a se acostumar com o fato de que todas as noites – ou então diante da presença de um grande mal – ele se transformaria em um esqueleto em chamas. E o pior de tudo, teve que se acostumar também a enfrentar bandidos, feiticeiros e principalmente Satã, que de tempos em tempos voltava para tentar capturar para si a alma de nosso herói. Mas tudo isso eram coisinhas de nada, já que com o tempo Blaze aprendeu a dominar as habilidades inerentes a sua forma inumana, como a capacidade de gerar e manipular chamas demoníacas. Mais para frente Blaze descobriu que poderia usar tais chamas para criar uma motocicleta mística para si, sendo que essa moto atingia velocidades fenomenais e praticamente desafiava a Lei da Gravidade, já que ela subia paredes e edifícios sem a menor dificuldade. Isso sem falar na super-força e na invulnerabilidade a ataques convencionais, que também vieram no “pacote” que Blaze ganhou de “presente” de Satã. Não demorou muito para o Motoqueiro Fantasma abandonar as páginas de Marvel Spotlight após a décima-primeira edição e ganhar em setembro de 1973 um gibi próprio. Só que, logo após o Motoqueiro se estabelecer perante o público, tanto Gary Friedrich quanto Mike Ploog abandonaram o título, e Tony Isabella – que substituiu Friedrich nos roteiros – decidiu que a série deveria tomar um novo rumo, conforme podemos constatar em entrevista que ele deu ao sitio eletrônico Pop Thoughts: “Quando fui contratado para escrever o Motoqueiro Fantasma duas coisas estavam óbvias para mim. Sem Mike Ploog as histórias baseadas no sobrenatural não funcionariam tão bem como quando durante a permanência dele no título, levando-me a considerar se a revista não venderia mais se eu enfatizasse os aspectos super-heroísticos do personagem. A outra coisa é que existiam vários avatares de Satã ativos no Universo Marvel, mas não existia nenhuma pequena evidência da real posição deles”. A fim de marcar esse novo rumo, nas revistas Ghost Rider #8 e 9, Isabella e o desenhista Jim Mooney conceberam uma história que marcaria o duelo final de Blaze com Satã, só que essa aventura gerou, digamos assim, uma “polêmica religiosa” dentro dos corredores da Marvel Comics.

Na citada aventura, através de algumas artimanhas Satã conseguiu fazer com que Roxanne retirasse a proteção espiritual que ela dava ao Motoqueiro, deixando o herói completamente a mercê do Cramulhão. Quando Satã estava prestes a levar Johnny Blaze para o Inferno, eis que surge um “sujeito misterioso”, parecidíssimo com Jesus Cristo! E, naturalmente, “O Filho de Deus” consegue rechaçar o Senhor das Profundezas, deixando Blaze livre para viver a sua vida da maneira que achasse melhor. Ora, a idéia de Isabella era incluir nas histórias do Motoqueiro alguns elementos cristãos, em contraposição aos aspectos satânicos inerentes ao gibi, a fim de criar até mesmo um pouco mais de carga dramática, tanto que o “sujeito misterioso” voltou a reaparecer em Ghost Rider #15 dando alguns conselhos para Blaze. Todavia, o “Todo-Poderoso” não gostou nada disso. O “Todo-Poderoso” no caso era o editor-chefe Jim Shooter, que deu ordens explícitas para que acabassem com todo aquele papo de “religiosidade” nas aventuras do motociclista infernal, já que ele era supostamente agnóstico. O resultado é que em Ghost Rider #19 os fãs descobriram que o “sujeito misterioso” era um disfarce que Satã estava usando para secretamente perturbar Blaze. Tony Isabella ficou tão furioso com essa intervenção editorial que posteriormente abandonou a Marvel, mas antes disso ele conseguiu executar a sua proposta de ressaltar o lado “super-herói” do Motoqueiro Fantasma.

Em Marvel Team-Up #20 o Motoqueiro esbarrou pela primeira vez com o Homem-Aranha e em Ghost Rider #10-11 Johnny Blaze teve que encarar a fúria do Incrível Hulk. Esses encontros deixavam claro para os leitores que apesar de o Motoqueiro Fantasma ter sido originalmente concebido com um pé no Terror ele era um personagem mais do que inserido dentro do Universo Marvel. Tal inserção ficou ainda mais caracterizada quando em 1975 o editor Lein Wein e o próprio Isabella decidiram que o Motoqueiro Fantasma seria integrante ativo dos Campeões (The Champions), uma super-equipe sediada em Los Angeles que também contava com a participação do Anjo e do Homem de Gelo (ex-membros dos X-Men naquela época), da ex-espiã soviética Viúva Negra e do semi-deus grego Hércules. A Marvel fez uma grande aposta nesse novo time de heróis, tanto que ele estreou de cara em titulo bimestral próprio em outubro de 1975, com os roteiros de Isabella e arte de Don Heck. Entretanto, as baixas vendas fizeram com que esse simpático gibi fosse cancelado após a décima sétima edição, e basicamente restou ao Motoqueiro aparições em sua própria revista. E com o passar do tempo a chegada de novos escritores como Michael Fleischer, Roger Stern, Roger Mackenzie e J.M. DeMatteis agregou novos elementos às suas aventuras. Aliás, coube a Fleischer conceber um dos mais estranhos crossovers dos quais o Motoqueiro Fantasma participou, um crossover com ninguém mais ninguém menos que o Ghost Rider original! Mas como esse encontrou rolou, se o Ghost Rider original era da época do Velho Oeste? Calma, amigos, que explicaremos...

Em Ghost Rider #50 Johnny Blaze se deparou com a alma-penada de Carter Slade, que veio do além para dar uma ajudinha ao herói. Posteriormente, em Ghost Rider #56 deu o ar da graça pela primeira vez Hamilton Slade, um arqueólogo especializado em cultura indígena e descendente direto de Lincoln Slade, a terceira pessoa a usar a identidade de Ghost Rider. Em uma pesquisa arqueológica Hamilton descobriu uma antiga urna funerária no deserto e dela emergiram os espíritos dos seus antepassados. Após esse encontro Hamilton ganhou a habilidade de invocar tais espíritos, e tendo seu corpo possuído por eles o arqueólogo se transfigurava no novo Night Rider. Esperem um pouco, o nome dele não era Ghost Rider? Bem, para evitar confusões entre os dois personagens a Marvel retroativamente mudou o nome do caubói, porém tempos depois ela percebeu que Night Rider não era exatamente a melhor das escolhas. Ora, para quem não entendeu, cabe aqui uma explicação: Night Rider ou “cavaleiro da noite” era o “simpático” apelido que os “simpáticos” membros da “simpática” organização racista Ku Klux Klan tinham nos estados sulistas dos EUA. Como o personagem tinha a roupa toda branca (assim como os integrantes da Klan) a Marvel decidiu não “brincar com fogo” e mudou novamente o nome do herói, dessa vez para Phantom Rider (Cavaleiro Fantasma aqui no Brasil). De um jeito ou de outro, apesar de ter seu nome modificado, como já dissemos acima, o herói do Velho Oeste nunca teve destaque no Universo Marvel, cabendo a ele participações esporádicas em outras revistas da editora, como em Incredible Hulk #265 (no Brasil, Incrível Hulk #18, Ed.Abril), West Coast Avengers #08-09 e a mini-série Blaze of Glory (sendo que as duas últimas estão inéditas por aqui). E, para terminarmos de falar quase tudo que interessa sobre o caubói em trajes brancos, é importante deixar registrado aqui que no final dos anos oitenta a editora AC Comics conseguiu sabe-se lá como adquirir os direitos do Ghost Rider da Magazine Enterprises. Isso não fez necessariamente com que a Marvel perdesse os direitos sobre o Phantom Rider (afinal, não podemos esquecer que ele é um plágio), mas a AC Comics se deparou com um pequeno probleminha nesse processo, já que a marca “Ghost Rider” era propriedade da editora de Stan Lee. Daí, a AC Comics foi obrigada a mudar o nome do personagem, alterando-o para Haunted Horseman (algo parecido com Cavaleiro Assombrado em português) e chegou a relançar várias histórias clássicas dos anos cinqüenta. Mas chega de falar do vaqueiro com cara de Gasparzinho! Vamos voltar a falar do Motoqueiro, que é o que interessa!

Bem, com o passar do tempo Johnny Blaze aprendeu a controlar suas transformações, e a sua vida particular passou por altos e baixos. O rapaz abandonou o show itinerante que havia herdado de Crash Simpson, trabalhou como dublê em Los Angeles, participou de algumas competições de moto, descolou um emprego no circo Quentin Carnival e por fim perdeu Roxanne, que ficou desmemoriada após um ataque do vilão Olho do Mal (The Orb) em Ghost Rider #28. Mas as mudanças de emprego ou a perda de Roxanne eram “fichinha” perto do que estava por vir, mesmo porque estranhas alterações de personalidade acometeram o motociclista. A cada transformação, o Motoqueiro ficava mais e mais violento, e nada – absolutamente nada – podia se interpor entre ele e o seu desejo de punir os culpados. Inicialmente Blaze acreditava que um lado sombrio da sua personalidade estava emergindo quando ele se transfigurava no Motoqueiro, mas a situação era muito pior do que isso. O ápice desses transtornos psicológicos aconteceu em 1982 na revista Ghost Rider #68, em uma história entitulada “The Curse of Jonathan Blaze” (A Maldição de Jonathan Blaze). Nessa brilhante aventura escrita por Roger Stern e desenhada por Bob Budiansky os leitores acompanharam o Motoqueiro Fantasma em uma ensandecida perseguição a um padre responsável por diversos crimes, e de quebra relembraram a origem do personagem. O Motoqueiro conseguiu capturar o padre, e valendo-se de suas chamas demoníacas simplesmente o abandonou no deserto às portas da loucura. Mas para falar a verdade a importância dessa aventura encontra-se em outro fato. Vocês se lembram da queixa de Tony Isabella sobre os “vários avatares de Satã ativos no Universo Marvel”? Pois é, nesse gibi foi finalmente revelado que o Satã da mitologia judaico-cristã na verdade era apenas um entre os muitos disfarces usados por Mefisto, o diabão-mor do Universo Marvel criado em 1969 por Stan Lee e John Buscema e que durante anos foi arquiinimigo do Surfista Prateado.

“The Curse of Jonathan Blaze” foi realmente um dos pontos mais altos da revista Ghost Rider, tanto que essa história foi relacionada na edição #175 da revista americana Wizard (especializada em quadrinhos) entre as cem melhores histórias simples (publicadas em uma única edição) de todos os tempos. Porém, toda a verdade sobre o Motoqueiro Fantasma seria contada em detalhes por J.M. DeMatteis e pelo artista Don Perlin somente mais adiante, nos gibis Ghost Rider #76-78. E a verdade veio à tona através de Pesadelo (o senhor dos reinos oníricos do Universo Marvel), que contou a Johnny Blaze que, quando Mefisto tentou levá-lo para o Inferno, ele implantou no seu corpo o espírito de Zarathos, um poderoso demônio ancestral que durante milhares de anos caminhou sobre o mundo punindo criminosos e devorando suas almas. Misteriosamente Zarathos foi aprisionado em uma rocha no sudoeste da América do Norte, porém a sua existência não foi esquecida. Cerca de dois mil anos atrás, um feiticeiro chamado K’nutu libertou Zarathos e manipulando os poderes do demônio ele escravizou dezenas de tribos indígenas. Ora, essas atividades chamaram a atenção de Mefisto, que achou que Zarathos seria perfeito para colher as almas dos pecadores na Terra. Dito isso, Mefisto usou como agente um príncipe de uma das tribos dominadas por K’nutu e obteve para si o domínio sobre Zarathos. Depois disso o tal príncipe indígena foi abandonado a própria sorte, mas essa não era a principal preocupação de Mefisto. O “grande x” da questão era que Zarathos era poderoso demais para ser usado como um simples lacaio. A solução encontrada para esse problema foi apagar a memória do devorador de almas e vinculá-lo a um hospedeiro humano, e assim durante centenas de anos vários mortais foram usados por Mefisto como receptáculo para o seu demônio-escravo, até que chegou o momento em que Johnny Blaze foi escolhido para carregar esse fardo.

Saber as verdadeiras origens dos seus dotes diabólicos com certeza não “aliviou a barra” de Johnny Blaze. E em Ghost Rider #80, ele teve um choque com a volta repentina de Roxanne Simpson (com a memória recuperada) a sua vida. Mas a sua antiga amada não foi ao Circo Quentin Carnival fazer uma visita social. Na verdade, após se separar do seu antigo namorado Roxanne foi morar junto com uma tia em uma pequena cidade do interior, e a paz nesse vilarejo estava sendo perturbada pelo pastor local apelidado de Sin-Eater (Devorador de Pecados, em português), que aparentemente demonstrava possuir poderes mistícos. Prontamente Blaze se propôs a ajudar a sua amada, e juntos se dirigiram a tal cidade, mas quando chegaram lá ambos descobriram que o tal pastor era apenas um títere usado por Centúrio, o Homem sem Alma. E quem diabos era esse tal de Centúrio? Ele já tinha aparecido anteriormente em Ghost Rider #74, mas somente naquele instante todos os fatos sobre a sua origem vieram a luz. Lembram-se do príncipe indígena que Mefisto usou para capturar Zarathos? Pois é, Centúrio era o dito-cujo. Depois da captura de Zarathos ele perdeu a sua alma e ficou durante centenas de anos vagando pelo mundo, e através de um artefato conhecido como “cristal das almas” ele se especializou em capturar espíritos. Quando soube que Zarathos caminhava novamente sobre a Terra, Centúrio vislumbrou a oportunidade de se vingar do demônio por todos os seus anos de sofrimento. E o confronto entre ambos rolou em Ghost Rider #81, e teve um desfecho surpreendente, já que o “cristal das almas” tragou para dentro de si Centúrio e Zarathos, libertando Johnny Blaze da maldição de dividir seu corpo com uma criatura demoníaca. Após esse incidente, o “cristal das almas” sumiu da face da Terra e reapareceu sabem nas mãos de quem? De Mefisto, é claro, que após um longo tempo obteve de volta para si os seus dois lacaios.

Após essa aventura a revista Ghost Rider foi cancelada, mas apesar de tudo a saga de Jonathan Blaze até que teve um final feliz: ele juntou os trapinhos com Roxanne, teve com ela dois filhos batizados com os nomes de Emma e Craig (esse último em homenagem ao seu pai adotivo) e com um empréstimo obtido junto a Warren Worthington III (o Anjo, seu ex-colega dos Campeões) ele pôde comprar o Circo Quentin Carnival. E todos viveram felizes para sempre... Ah, antes que nos esqueçamos, precisamos passar uma informação importantíssima para os fãs que gostam de “garimpar” revistas antigas em sebos: o Motoqueiro Fantasma estreou no Brasil em 1978 em uma revista com esse mesmo nome pela Editora Bloch e que durou apenas uma edição. Em 1979, a Editora Abril adquiriu os direitos de publicação do personagem e o publicou de maneira irrregular nas revistas Heróis da TV e Capitão América até o ano de 1985. A última história de Jonathan Blaze servindo de hospedeiro para Zarathos publicada no Brasil foi justamente o já citado polêmico “duelo final” entre ele e Satã, que saiu em Capitão América #72. Daí para frente, todas as aventuras do Motoqueiro permaneceram inéditas em terras brasileiras.

Bem, terminamos por aqui, mas vamos deixar uma pergunta no ar: será que o Motoqueiro Fantasma nunca mais caminharia sobre a Terra? A nossa esperta e consagrada audiência sabe muito bem que o mais diabólico e sinistro motociclista dos quadrinhos americanos voltaria a dar as caras, e sabe também que jamais deixaríamos de lado um assunto tão interessante. Por isso, deixamos registrado aqui o convite para que vocês continuem nos acompanhando e leiam a segunda parte desse artigo, onde falaremos sobre o segundo hospedeiro do Motoqueiro Fantasma, a volta de Johnny Blaze, erros de continuidade e outras coisas mais. Esperamos vocês lá!


P.S.: Esse artigo foi escrito ao som de “Ghost Riders in the Sky”, clássico da country music interpretado por Johnny Cash; “Number of the Beast”, do Iron Maiden; “Sympathy For The Devil”, dos Rolling Stones, “Highway to Hell”, do AC/DC e  “Born to be Wild”, do Steppenwolf.
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Ghost Rider #68: Satã na verdade era Mefisto
Ghost Rider #81: Blaze se separa de Zarathos
 


 

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