O Coringa não tem uma revista mensal própria pela maior parte da sua história, e as melhores histórias dele estão espalhadas por décadas de títulos do Batman e por graphic novels avulsas. Para quem quer conhecer o personagem a fundo — e entender por que ele é considerado o maior vilão dos quadrinhos —, este guia reúne as obras essenciais numa ordem de leitura que faz sentido, indicando quais exigem contexto do Batman e quais funcionam sozinhas.
SPOILER À VISTA
Este guia discute os desfechos de A Piada Mortal, Uma Morte em Família e outras obras — incluindo quem é ferido, quem morre e como. Se você pretende ler essas HQs sem saber de nada, vá direto para a seção de edições.
O Coringa Tem Origem? (A Resposta Curta É "Não, de Propósito")
Diferente de quase todo grande personagem de quadrinho, o Coringa não tem uma origem canônica fixa. A versão mais influente — o comediante fracassado que cai num tanque de produtos químicos numa única noite ruim — vem de A Piada Mortal, mas o próprio roteiro deixa claro que o Coringa não confia nas próprias lembranças: "Se eu vou ter um passado, prefiro que ele seja de múltipla escolha". Roteiristas posteriores trataram isso como regra. O Coringa é definido pelo que faz, não por de onde veio.
Isso é libertador para o leitor: você não precisa ler as histórias "na ordem certa da vida dele", porque essa ordem não existe. O que existe é uma ordem que constrói melhor o entendimento do personagem — e é essa que este guia propõe.
As Obras Essenciais, em Ordem
1. Batman: O Homem Que Ri (2005)
De Ed Brubaker e Doug Mahnke. É uma releitura moderna da primeiríssima aparição do Coringa (1940), reposicionada logo no início da carreira do Batman. Funciona como um "episódio piloto" perfeito: mostra o primeiro assassinato em série do Coringa em Gotham, o primeiro duelo de inteligência com o Batman e estabelece a dinâmica dos dois. Comece por aqui.
2. Batman: A Piada Mortal (1988)
De Alan Moore e Brian Bolland. O one-shot mais famoso do personagem. O Coringa foge do Asilo Arkham decidido a provar que basta "um dia ruim" para enlouquecer qualquer pessoa — e escolhe o Comissário Gordon como cobaia. Para isso, atira em Barbara Gordon, a deixa paraplégica (evento que a tirou do papel de Batgirl por quase 25 anos) e submete Gordon a tortura psicológica. O final ambíguo, com Batman e Coringa rindo juntos, é debatido até hoje.
3. Batman: Uma Morte em Família (1988)
De Jim Starlin e Jim Aparo. O Coringa espanca Jason Todd, o segundo Robin, com um pé de cabra e o deixa para morrer numa explosão. Nos EUA, os leitores votaram por telefone se Jason viveria ou morreria — e votaram pela morte. É a história que fez do Coringa uma ameaça com peso real e assombrou o Batman por décadas.
As obras 2 e 3 rendem muito mais se você já conhece o núcleo do Batman — quem é Barbara Gordon, quem é Jason Todd, a relação com o Comissário. Se você é totalmente novo no personagem, vale ler antes o nosso guia de por onde começar a ler Batman.
4. Coringa (2008)
De Brian Azzarello e Lee Bermejo. Uma graphic novel noir, sombria e realista, narrada pelo ponto de vista de Jonny Frost, um capanga de baixo escalão que se torna motorista do Coringa recém-saído de Arkham. Você nunca entra na cabeça do Coringa — só vê o rastro de medo e violência que ele deixa. É a obra mais "adulta" da lista e funciona bem como leitura independente, sem exigir continuidade.
5. Batman: A Morte da Família (2012)
De Scott Snyder e Greg Capullo. Não confundir com Uma Morte em Família (1988). Aqui o Coringa retorna a Gotham depois de um ano sumido, com o rosto literalmente costurado de volta, e ataca a "família" do Batman — Nightwing, os Robins, Batgirl — para provar que eles tornam o Batman fraco. É a interpretação moderna definitiva do personagem como obsessão amorosa e destrutiva pelo Batman.
Menções Honrosas (para depois)
- O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller — tem o confronto final Batman/Coringa mais visceral já publicado.
- Asilo Arkham (1989), de Grant Morrison e Dave McKean — o Coringa como mestre de cerimônias de um pesadelo psicológico. Leitura densa e simbólica.
- Batman: Três Piadas (2020), de Geoff Johns e Jason Fabok — tenta explicar por que houve tantas versões contraditórias do Coringa. Polêmica, melhor lida por último.
- Coringa (2021), de James Tynion IV — série solo em que Jim Gordon, aposentado, caça o Coringa pelo mundo. Boa continuação para quem quer material recente.
As obras essenciais do Coringa em um relance
| Ordem | Obra | Ano | Autores | Exige contexto? |
|---|---|---|---|---|
| 1 | O Homem Que Ri | 2005 | Brubaker / Mahnke | Pouco |
| 2 | A Piada Mortal | 1988 | Moore / Bolland | Médio |
| 3 | Uma Morte em Família | 1988 | Starlin / Aparo | Alto |
| 4 | Coringa | 2008 | Azzarello / Bermejo | Nenhum |
| 5 | A Morte da Família | 2012 | Snyder / Capullo | Médio a alto |
As Edições no Brasil
A Piada Mortal é publicada pela Panini em edição de capa dura, geralmente com a colorização definitiva de Brian Bolland e material extra — é a graphic novel do Coringa mais fácil de achar e a de melhor custo-benefício para começar. Coringa, de Azzarello e Bermejo, também sai em capa dura, num formato maior que valoriza a arte pintada de Bermejo. O Homem Que Ri e A Morte da Família costumam aparecer tanto em encadernados próprios quanto dentro de coletâneas maiores das respectivas fases do Batman — vale conferir o sumário antes de comprar para não pagar duas vezes pelo mesmo material.
Se você quer ler só duas, fique com A Piada Mortal (a interpretação mais influente da origem e da relação com Gordon) e Coringa, de Azzarello (a visão externa, sem romantização). Juntas, elas cobrem os dois extremos de como o personagem é retratado.
Veredito Final: Por Onde Começar
Comece por O Homem Que Ri se você quer a porta de entrada mais limpa, ou direto por A Piada Mortal se já conhece o básico do Batman e quer ir ao ponto. Depois, siga a ordem do guia. O Coringa é um personagem que ganha em camadas: quanto mais versões contraditórias você lê, mais claro fica que a contradição é o personagem — não um defeito de continuidade, mas o traço central de alguém que se recusa a ter uma história fixa.






