Se você conheceu os Guardiões da Galáxia pelos filmes e foi atrás das HQs, provavelmente esbarrou numa confusão: existe um time dos anos 1960 que não tem quase nada a ver com o Senhor das Estrelas e a turma da tela, e existem umas cinco "fases modernas" diferentes, publicadas fora de ordem no Brasil, cada uma com um tom próprio. Este guia organiza tudo: o que é obrigatório, o que é curiosidade histórica e por onde um leitor novo deve realmente começar para chegar rápido no material que inspirou os filmes.
Qual "Guardiões da Galáxia" Você Quer Ler?
Antes de qualquer ordem de leitura, é preciso entender que existem dois times completamente distintos usando o mesmo nome:
- O time original (1969): criado por Arnold Drake, é um grupo do século 31, formado por Vance Astro, Yondu, Charlie-27, Martinex e, mais tarde, Starhawk e Nikki. Nada de Groot, Rocket ou Gamora. É ficção científica old school, com viagem no tempo e resistência a um império alienígena.
- O time moderno (2008): criado por Dan Abnett e Andy Lanning a partir dos eventos cósmicos da Marvel dos anos 2000. Star-Lord, Gamora, Drax, Rocket Raccoon, Groot e Adam Warlock. É esse time que os filmes adaptam.
Se seu interesse vem dos filmes, você quer o time moderno. O time original só importa como contexto opcional — e a gente explica onde ele se encaixa mais adiante.
O nome "Guardiões da Galáxia" ficou adormecido por décadas. Quando Abnett e Lanning montaram a nova equipe em 2008, foi o personagem Star-Lord quem sugeriu o nome dentro da própria HQ, como uma homenagem ao grupo do futuro. Ou seja: a conexão entre os dois times é basicamente o nome.
O Time Original (1969 / 1990): Vale a Pena?
Para a maioria dos leitores novos, não — pelo menos não como ponto de partida. O grupo do século 31 teve sua série de maior fôlego nos anos 1990, escrita e desenhada por Jim Valentino, com 62 edições. É uma leitura divertida de ficção científica retrô, mas está desconectada de tudo que veio depois e raramente é reimpressa no Brasil.
Deixe essa fase para depois, como aprofundamento, se você se apaixonar pelo conceito. Ela não é pré-requisito para nada da era moderna.
A Era Moderna: Onde Tudo Realmente Começa
O time dos filmes não surge do nada numa revista chamada "Guardiões da Galáxia #1". Ele é o resultado de dois grandes eventos cósmicos que reorganizaram esse canto do universo Marvel. Ler esses dois eventos primeiro é o que faz a run principal ter peso.
1. Aniquilação (2006)
Escrito majoritariamente por Keith Giffen, Aniquilação é a saga em que Annihilus invade o universo positivo com um exército vindo da Zona Negativa, dizimando os Nova Corps e boa parte do status quo cósmico. É aqui que Nova (Richard Rider), Ronan, Gamora, Drax e o próprio Star-Lord são recolocados no centro do tabuleiro depois de anos de esquecimento.
Por que ler primeiro: é a fundação. Aniquilação estabelece o tom — militar, sombrio, com consequências permanentes — que a run dos Guardiões vai herdar.
2. Aniquilação: Conquista (2007)
A sequência, já com forte participação de Abnett e Lanning, tem os Phalanx (a raça tecno-orgânica ligada a Ultron) assimilando o Império Kree. É nessa saga que Rocket Raccoon e Groot voltam à ativa e que Star-Lord monta uma equipe de operações especiais. No fim de Conquista, Peter Quill decide que o universo precisa de um grupo proativo, que apague incêndios cósmicos antes que virem guerras. Nasce ali o time moderno.
Se você quer o caminho mais curto possível até o time dos filmes, pode começar direto em Aniquilação: Conquista e tratar Aniquilação como leitura de contexto para fazer depois. Você vai perder alguns ganchos emocionais, mas a formação do time fica clara.
A Run Definitiva: Abnett & Lanning (2008–2010)
Esta é a leitura principal, a que os roteiristas dos filmes citaram como referência direta de tom, humor e dinâmica de grupo. São 25 edições de Guardians of the Galaxy mais os eventos cósmicos que correm em paralelo. A ordem interna recomendada:
- Guardiões da Galáxia (2008) #1 a #12 — formação do time, a base em Knowhere, o humor ácido de Rocket, o mistério em torno da amnésia de Star-Lord.
- Guerra dos Reis (War of Kings) — o conflito entre os Inumanos de Rayo Negro e o Império Shi'ar de Vulcano. Os Guardiões #13 a #19 cruzam com esse evento.
- Reino dos Reis (Realm of Kings) — a fenda no espaço-tempo, a ameaça da Falha e a primeira aparição forte dos Universos-Cânceres.
- A Imposição de Thanos (The Thanos Imperative) — o clímax de tudo que Abnett e Lanning construíram: Thanos é trazido de volta como arma contra um universo onde a morte não existe. É um dos melhores finais de arco da Marvel cósmica.
Ao terminar A Imposição de Thanos, você fechou a run clássica com início, meio e fim. É perfeitamente possível parar aqui satisfeito.
A Run de Bendis (2013): O Ponto de Entrada Mais Fácil
Quando o primeiro filme se aproximou, a Marvel relançou Guardiões da Galáxia com roteiro de Brian Michael Bendis e arte de Steve McNiven. Essa fase é mais leve, mais "blockbuster", com diálogos de banter constante e uma aproximação deliberada da estética que apareceria nos cinemas — inclusive com o visual dos personagens ajustado para bater com os atores.
É a fase mais fácil de recomendar para quem não quer ler dois eventos cósmicos antes. A run de Bendis assume pouca bagagem, apresenta o time do zero e incorpora convidados populares como Homem de Ferro, Venom, Kitty Pryde e Anjo (Angela). Em compensação, tem menos densidade e um ritmo mais decompressed (menos acontece por edição) do que a fase de Abnett e Lanning.
No Brasil, a fase de Bendis chegou primeiro (na esteira do filme de 2014), e só depois a Panini reeditou o material clássico de Abnett e Lanning em formato de luxo. Ou seja: a ordem em que as edições apareceram nas bancas é o inverso da ordem cronológica da história. Não se guie pela data de lançamento nacional.
As Runs Modernas: Duggan, Cates e Ewing
Depois de Bendis, três fases valem menção para quem quiser continuar:
- Gerry Duggan (2017, All-New Guardians of the Galaxy) — retoma o elenco clássico com humor afiado; boa leitura de transição.
- Donny Cates (2019) — começa com o funeral de Thanos e a revelação de seu testamento. Mais sombria e conectada à Marvel cósmica ampla.
- Al Ewing (2020–2022) — muito elogiada pela crítica. Reinventa o time como um corpo diplomático intergaláctico e aprofunda personagens secundários. Funciona quase como leitura independente, mas rende mais com a base das fases anteriores.
As fases modernas dos Guardiões em um relance
| Fase | Anos | Autor principal | Tom | Exige contexto? |
|---|---|---|---|---|
| Aniquilação / Conquista | 2006-07 | Giffen / Abnett & Lanning | Guerra cósmica, sombrio | Não (é o começo) |
| Guardiões por Abnett & Lanning | 2008-10 | Dan Abnett e Andy Lanning | Aventura, humor ácido, épico | Ideal ler os eventos antes |
| Guardiões por Bendis | 2013-15 | Brian Michael Bendis | Leve, blockbuster, banter | Quase nenhum |
| All-New Guardians | 2017 | Gerry Duggan | Humor, elenco clássico | Pouco |
| Guardiões por Cates | 2019 | Donny Cates | Sombrio, cósmico amplo | Médio |
| Guardiões por Ewing | 2020-22 | Al Ewing | Político, dramático, coral | Baixo a médio |
As Edições no Brasil: Omnibus vs. Encadernados de Entrada
A Panini publicou a run de Abnett e Lanning em formato Omnibus de capa dura, reunindo a série de 2008 junto com os tie-ins dos eventos numa leitura contínua — é a forma mais completa e organizada de ler a fase definitiva de uma vez só. Se o conceito de Omnibus é novo para você, vale conferir nosso guia sobre o formato antes de investir.
Já a fase de Bendis circulou em encadernados de capa cartão mais finos (linha Marvel NOW!) e, depois, em edições Deluxe. Para quem quer só experimentar o time sem gastar muito, o primeiro volume de Bendis é o ponto de entrada de menor investimento.
Omnibus da Marvel cósmica costumam ter tiragem enxuta e demoram a ser reimpressos. Se você encontrar o Omnibus dos Guardiões por um preço próximo ao de capa, não deixe para depois — o mercado de revenda dessas edições esgotadas é notoriamente caro.
Veredito Final: Por Onde Começar
- Você veio dos filmes e quer o caminho mais rápido: comece pela run de Bendis (2013). Ela te dá o time, o tom e o elenco com quase zero pré-requisito.
- Você quer a experiência completa e não se importa em ler dois eventos antes: vá de Aniquilação → Aniquilação: Conquista → run de Abnett e Lanning no Omnibus. É a leitura mais recompensadora, e a que realmente explica por que esse time funciona.
- Você já leu tudo isso e quer mais: siga para Duggan, depois Cates, depois Ewing — nessa ordem.
Ignore o time do século 31 até ter certeza de que quer se aprofundar. Ele é uma nota de rodapé histórica simpática, não um pré-requisito para entender os Guardiões que você conhece.






